Mercado de M&A desafia lógica dos grandes aportes em tecnologia

No cenário brasileiro de tecnologia, captar investimentos vultosos sempre foi visto como um dos principais sinais de sucesso e maturidade. Rodadas elevadas de aporte chamam atenção, inflacionam valores de mercado e criam a percepção de que só as startups abastecidas por fundos de venture capital são capazes de escalar e chamar atenção para possíveis aquisições (M&A). Mas uma nova pesquisa mostra que esse não é o único caminho para construir ativos valiosos.

Um levantamento elaborado pela Questum analisou 1.181 empresas de tecnologia adquiridas no Brasil entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. A surpresa está nos números: apenas 117 empresas (ou 9,9%) captaram R$ 20 milhões ou mais antes de serem vendidas — valor considerado referência para rodadas Série A. As outras 1.064 chegaram a um acordo de venda sem captar quantias expressivas dessa natureza.

O que impulsiona uma aquisição tech

Esses dados sugerem a necessidade de um novo olhar sobre quais fatores realmente tornam uma startup atraente para aquisição. Mais do que ter um histórico robusto de fundraising, o que determina o valor de uma empresa está relacionado à sua capacidade de construir ativos únicos e difíceis de replicar, como:

  • Uma carteira expressiva de clientes
  • Soluções tecnológicas proprietárias
  • Receita recorrente e previsível
  • Nichos de mercado específicos e dominados
  • Eficiência de distribuição
  • Equipe com alta especialização

É o que um ativo acrescenta à estratégia do comprador que determina seu valor econômico — não apenas o volume de recursos captados anteriormente.

Captação: ferramenta, não status

Embora o venture capital continue relevante, especialmente para empresas que precisam acelerar expansão e conquistar mercados rapidamente, o estudo mostra seus limites como indicador absoluto de qualidade ou potencial. Segundo dados da LAVCA, em 2025 houve queda no volume de investimentos de venture capital na América Latina e parte significativa dos recursos ficou concentrada em poucas startups. Ou seja, não figurar entre os maiores beneficiários de capital não invalida o potencial de uma empresa nem sua capacidade de gerar valor.

Além disso, o foco exagerado em captar novas rodadas pode distorcer prioridades, levando à busca por crescimento desordenado, sem eficiência ou preservação de margem, e a valuations pouco fundamentados na realidade do negócio.

Critérios reais para ser atraente no M&A

Empresas que desejam se tornar alvos atrativos para compra devem priorizar:

  • Margem operacional sólida
  • Previsibilidade de receitas
  • Propriedade intelectual relevante
  • Gestão estruturada e profissionalizada
  • Baixa dependência de poucos clientes ou sócios fundadores

Esses critérios ampliam a definição de sucesso para startups brasileiras. O mercado de aquisições está aberto a muito mais empresas do que as manchetes sobre mega rodadas de captação costumam sugerir.

Sucesso fora dos holofotes dos investimentos

Para muitos fundadores, crescer com maior controle e preservar participação societária pode ser tão ou mais estratégico do que buscar aportes sucessivos. O mercado de M&A no Brasil mostra que é possível criar valor relevante e chegar à mesa de negociação mesmo sem capital de risco bilionário.

Venture capital seguirá financiando parte das maiores histórias do setor tech nacional, mas empresas relevantes continuarão construindo ativos estratégicos — e sendo compradas — longe do centro das atenções das grandes rodadas.

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